Crônica

Já fui tarde…

Quando fui expulsa de um hostel na Sérvia, e era tudo que eu mais queria!

Aquele dia de verão estava mais que quente, já não aguentava mais. E não me refiro ao calor. Brasileiras não tem dessas frescuras. Com a gente é “Rio 40 graus, cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos”.

A questão aqui é que eu não aguentava mais Belgrado. A capital da Sérvia é uma cidade linda. Cheia de parques e de uma vida noturna a beira do rio que é de deixar muita Paris no chinelo. Porém a vibe aonde eu estava ficando não acompanhava o cenário.

Faziam 18 dias que eu já não curtia o lugar. Comecei o trabalho na recepção desse Hostel fajuto no terceiro andar de um prédio residencial com um elevador de filmes de terror. De velho mesmo. Eu subia de escada pra não arriscar. Se fosse de noite então, a relíquia acordava metade do prédio.

Acho que eu só aturei tamanha falta de estrutura porque fui parar lá por uma indicação de Pamela, a recepcionista do outro Hostel na Croácia, ai se ela soubesse… Até a chegada no aeroporto foi esquisita.

No dia um fiscal veio atrás de mim no hall do desembarque, após eu já ter passado pela imigração, passaporte carimbado e pegado minhas bagagens, pra me encher de perguntas capciosas. Enfim, passado o momento “vou ser deportada” tudo até que correu bem. Me buscaram de carro, carregaram minhas malas, duas na época santa era minha ignorância.

Mas já nos primeiros dias eu senti a presença dele. De mansinho, cheio das gracinhas, se disfarçando de brincadeira boba. O machismo. Tava lá todo dia estampado na cara do proprietário.

Mesmo sendo um hostel mequetrefe de quinta categoria ele dava ordens como se fosse um pavão rei. Cheio das histórias “não gosto de latinos”, e etc.

Sustentei a pose até a terceira semana. Naquele mantra “só 3 semanas e eu vou pra Barcelona, só 3 e vou pra Barcelona”. Não fosse a passagem ja comprada e o namorado esperando eu acho que eu teria perdido a compostura bem antes.

O hostel tinha seus eventos comerciais. Um tour e um quiz de conhecimentos gerais. Era minha função como recepcionista levantar o maior número de hóspedes, dos 3 quartos mal mobiliados, para participar. O tour era ok mas era o tour gratuito da cidade, não era nada especial. O quiz eu gostava, acontecia toda quinta no bar Nomad, às 20h.

Era justamente numa quinta-feira que meu verão sérvio desandou. Naquele dia eu e o dono tínhamos tido uma discussão sobre algo bem trivial que agora eu nem lembro. Coisa de costumes culturais ou algo do tipo. Eu fiz uma piada utilizando o termo “Shut up” que do inglês americano, dependendo do contexto, pode ser apenas uma giria do tipo “a tá de caô”. Deu ruim. Ele não entendeu o sentido da minha colocação. A semente foi plantada ali.

Até aí ok, Rossana, a outra voluntária italiana, estava comigo na hora e ficou por isso mesmo. Fomos para o quiz, eu e Rossana. Nos divertimos muito porque ganhamos a disputa. O prêmio: Uma garrafa de Rhakia, bebida tradicional dos balkans. Parece a nossa cachaça, só que ruim.

Eu devia fazer o turno da noite naquele quinta-feira, substituindo o dito pavão rei.  Como a hora do meu turno se aproximava eu enviei uma mensagem, perguntando se tinha problema eu chegar um pouco atrasada já que eu receberia a premiação do quiz. Ele leu e não respondeu. Ok, quem cala consente, né?

Quando eu cheguei no hostel ele estava me esperando e a única coisa que me disse foi. “Faça suas malas e vá embora”. Era 00h.

Não sei se por que eu já tinha bebido algumas doses da tal Rhakia ou porque eu já não queria ficar lá mesmo, mas eu respondi:”Beleza”. Ele não disse nem mais uma palavra. Mandei mensagem pra Rossana. Ela ria, e daí eu também sorria, porque a gente sabia.

40 minutos depois… Com as duas malas (nesse dia eu decidi me livrar delas) eu peguei o elevador pré-histórico. Desci sob a sinfonia de ferrugens e fui pro corredor do hall. Sentei na mala e comecei a buscar hospedagens próximas. Alguns hóspedes passaram por mim. Cumprimentei na boa.

Minutos depois o pavão rei desce. “Isso aqui não é campo de refugiados não, vá embora”.

Eu podia pegar um taxi, dinheiro não era problema. Mas Rossana estava vindo ao meu encontro a pé, e nós iriamos juntas encontrar o Hostel onde eu iria ficar. Fui andando. Eu as benditas duas malas. “Se já está no inferno…”

Nos encontramos 15 minutos de perrengue depois. Rimos, bebemos Rhakia, rimos mais um pouco e ela me ajudou com as malas. Dormi num hostel excelente chamado Downtown e aposentei o mantra. Naquele dia entendi o motivo da Guerra da Iugoslávia.

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